BILHETEIRA
PROGRAMA
Mariana VIEIRA - Rasgar o tempo
para soprano, violoncelo e electr6nica
Philippe MANOURY - En Echo
para soprano e eletroacustica Poesia de Emmanuel Hocquard
Criação e Interpetação
Natasa Sibalic – direção artística
Nélia Pinheiro – coreografia
Mariana Vieira – composição
Nuno Mika – projeção
Anabela Gaspar – iluminação
Natasa Sibalic – voz (soprano)
Maria Nabeiro – violoncelo
Rafaela Nunes – bailarina
Sara Gomes – bailarina
"Corpo Que Canta" é um espetáculo multidisciplinar que explora e questiona o corpo e o seu entorno, natureza por vezes disfuncional, urbana, mecanicista, numa dialogia libertadora dos sentidos, do humano. O ponto de partida para este projeto é a obra "En Écho" de Philippe Manoury, sobre poemas de Emmanuel Hocquard, para soprano e eletroacústica em tempo real, enquadrada numa outra criação sonora, encomendada à compositora portuguesa Mariana Vieira, para soprano, eletroacústica e violoncelo.
Esta construção sonora e performativa inspira o movimento de corpos que evoluem numa cenografia arquitetónica de luz, que envolve intérpretes e público, num dispositivo cénico que se prefigura como espetáculo total. Voz humana, corpo e artifício: o que nos atrai, ilude, move ou distancia da realidade digital com a qual cada vez mais nos relacionamos.
"Corpo Que Canta" is a multidisciplinary performance that explores and questions the body and its surroundings-at times dysfunctional,urban, and mechanistic-through a liberating dialogue of the senses and of our shared humanity. The starting point for this project is En Echo by Philippe Manoury, based on poems by Emmanuel Hocquard. for soprano and live electroacoustics, framed within a new sonic creation commissioned from Portuguese composer Mariana Vieira for soprano, electroacoustics, and cello.
This sonic and performative construction inspires the movement of bodies evolving within an architectural light scenography thatenvelops both performers and audience, creating a scenic dispositif that aspires·to the idea of a total artwork. Human voice, body, andartifice: what attracts, deceives, moves, or distances us from the digital reality with which we increasingly interact.
Natasa Sibalic, sobre a criação
Sou uma artista vocal com formação lírica e uma longa carreira dedicada à música de câmara, ópera e outros géneros vocais. Sempre me atraíram as obras cuja dramaturgia interna inspiram a encenação e a possibilidade de sair do formato estrito do concerto. Particularmente algumas criações para soprano e geometria instrumental variável de compositores como Dusapin, Morton Feldman, Isidora Žebeljan, Philippe Manoury, entre outros.
Procuro uma expressão orgânica e multidisciplinar de pensar o que a música nos inspira e promove o envolvimento natural de artistas das outras áreas de artes de palco. Voz como veículo que — sempre através da música — transforma e induz poesia, teatro e movimento. Este é o primeiro projeto de um ciclo que se conformará como uma espécie de laboratório. Para ele convidámos um arquiteto para criação de ambientes, cenários e personagens de luz, uma compositora, uma coreógrafa, bailarinos e um instrumentista. E também, para já e talvez não acidentalmente, uma criação no feminino.
Mariana Vieira, sobre "Rasgar o Tempo"
Na peça "Rasgar o Tempo" foram utilizados os poemas "Viagens e Desvios", de Ana Luísa Amaral, e "Forever – is composed of Nows", de Emily Dickinson. Quando iniciei o processo de composição desta peça, já tinha a ideia de utilizar textos que refletissem sobre a experiência do tempo. Estes dois poemas em particular interessaram-me por me permitirem colocar lado a lado duas formas de experienciar o tempo que, apesar de aparentemente contrárias, podem coexistir. Por um lado, o tempo como uma sequência de momentos presentes, orgânicos (Dickinson); e por outro, e não obstante, a dificuldade da sua passagem pela incerteza do futuro (Amaral).
Musicalmente, quis explorar processamentos eletrónicos que, de algum modo, causam uma disrupção na temporalidade dos eventos musicais (através de técnicas de síntese granular, delay e reverberação, entre outras). Procurei também uma escrita que refletisse a natureza dos textos utilizados, oscilando entre uma escrita mais fragmentada e ruidosa, e uma escrita mais melódica.
Philippe Manoury, sobre "En Écho"
Após trabalhar de diferentes modos interativos entre o mundo instrumental e o das novas tecnologias informáticas, colocou-se-me a questão da voz. A voz não é um instrumento no sentido estrito; de facto, a sua produção sonora não depende de mecanismos artificiais. Neste caso, trata-se, portanto, de captar um sinal sonoro — extremamente complexo e variável — e sincronizá-lo com um computador. O sinal sonoro em questão ultrapassa em complexidade aquilo que conhecíamos do mundo instrumental. Uma voz produz alturas, mas também fonemas, ruídos e uma variabilidade de espectro muito em movimento. (...) Em alguns casos, o objetivo é conseguir sincronizar o processador com uma voz falada simples, ignorando qualquer conotação de altura musical; noutros, detetar certas características (como sons ruidosos) da emissão vocal; noutros ainda, é a melodia que está no centro do interesse, etc. As diferentes categorias são, por sua vez, chamadas a estabelecer uma relação sensível entre voz e máquina. É esta polifonia de comportamentos que precisamos de detetar.
A sincronização é o primeiro passo, mas a captura de fenómenos complexos, como a variação de formas espectrais, o reconhecimento de fonemas ou de algumas microestruturas, seja com vista a estabelecer redes de controlo num dispositivo de síntese ou de processamento de sinal, é a problemática que se nos coloca. O material musical é composto exclusivamente por sons sintetizados, samples vocais e transformações em tempo real da voz a solo.
Nunca separei a experimentação do meu trabalho composicional. Neste caso específico, a experimentação é até a regra. Em vez de usar textos já escritos e concluídos, a ideia de uma colaboração ativa com um escritor pareceu-me mais frutífera. E é neste espírito que Emmanuel Hocquard e eu idealizámos o nosso trabalho. Os textos que ele me forneceu são material poético que trabalho de acordo com os imperativos que me orientam na composição. Ainda que todas as frases sejam de Emmanuel Hocquard, o texto na versão atual é uma escolha minha, a partir de um material mais amplo. Nada foi definido, a priori, exceto que todos os textos tenham uma temática transversal que envolva uma relação erótica. Philippe Manoury, Les Cahiers de l'Ircam, coll. Compositeurs d'Aujourd'hui n.º 8, Paris, 1995.