O Canto dos Outros Seres • Ilda Teresa Castro & Vítor Rua
O Canto dos Outros Seres
Ilda Teresa Castro & Vítor Rua
Ilda Teresa Castro - Criação, Libreto e Theremin
Vítor Rua- Composição musical e Guitarra eléctrica granular, The Pipe, Torso S-4, Tempera e Laptop
Tó Trips- Guitarra eléctrica
Bárbara do Canto Lagido - Voz e Narração
Vera Mantero - Coreografia e Performance
Cenografia - Edgar Massul
Ilda Teresa Castro- Concepção vídeo
O Canto dos Outros Seres nasce de uma pergunta simples e difícil. Num tempo marcado pela devastação ecológica, pela guerra e pela crescente subordinação da vida a interesses económicos e geopolíticos, em que momento deixámos de sentir que pertencíamos ao mundo vivo?
Durante séculos, plantas, animais, rios, astros, metais e seres humanos foram pensados como participantes de uma mesma ordem cosmológica, unidos por relações de correspondência, interdependência e transformação. A modernidade introduziu progressivamente uma outra visão: a Natureza tornou-se objecto, recurso, matéria disponível para cálculo, exploração e extracção. O mundo foi dividido. De um lado, o humano. Do outro, tudo o resto.
A partir deste longo processo histórico — que atravessa a magia natural, os processos de animais, a perseguição da bruxaria, o mecanicismo moderno e o Capitaloceno — e inspirando-se em Um Erro Epistemológico Fundamental: da magia natural ao Capitaloceno, próximo livro de Ilda Teresa Castro, O Canto dos Outros Seres propõe uma arqueologia poética da separação entre humano e Natureza.
Situada entre ópera contemporânea, teatro musical, paisagem sonora, instalação performativa e ritual de escuta, a obra articula voz, guitarras eléctricas, theremin, movimento, vídeo e espacialização sonora para construir um território onde diferentes temporalidades e formas de vida se tornam novamente perceptíveis.
Mais do que representar a Natureza, a peça procura criar condições para uma experiência de escuta. Uma escuta capaz de interrogar aquilo que séculos de separação entre humano e Natureza tornaram progressivamente invisível: a continuidade entre humano, matéria e mundo vivo. Mais do que contar uma história, utiliza a ópera como dispositivo de pensamento e interrogação do mundo contemporâneo.
Em cena, a voz de Bárbara do Canto Lagido, as guitarras de Vítor Rua e Tó Trips, a presença coreográfica de Vera Mantero, a cenografia de Edgar Massul e o theremin de Ilda Teresa Castro constroem um espaço onde concerto, performance, instalação sonora e pensamento ecológico se cruzam.
Talvez exista ainda algo no real que resista à sua redução a recurso, objecto ou coisa morta. Talvez existam ainda outros seres a comunicar através da noite.
Apoio - Fundo Cultural da Sociedade Portuguesa de Autores
©Ilda Teresa Castro


