Sala Bernardo Sassetti 18h
“PEIXINHO POLÍTICO”
Programa:
Leitura de poema de e por Gisela Casimiro
Monográfico Jorge Peixinho
Jorge Peixinho: CDE (1970)
Jorge Peixinho: Elegia a Amílcar Cabral (1973)
Jorge Peixinho: A Aurora do Socialismo (Madrigale Capriccioso) (1975–76)
Ensemble MPMP
Rui Borges Maia (fl)
Miguel Costa (Cl)
Armando Martins (tpa)
Philippe Marques (Pn)
Francisco Cipriano (perc)
Daniel Bolito (Vln)
Ângela Carneiro (Vc)
Jorge Peixinho é um caso singular na historiografia da música portuguesa. A ele devemos (afirmou Augusto M. Seabra) “o efectivo início de práticas musicais contemporâneas em Portugal”. “Nunca é demais recordá-lo”, disse o crítico. Porém, são demasiadas as vezes em que essas práticas são mal recordadas — reduzidas à introdução de uma estética serialista em contexto nacional, resumida de forma rápida pela sua frequência dos cursos de verão de Darmstadt.
Uma caricatura de tal modo esboçada deixa de fora o seu trabalho seminal na electroacústica, na música incidental para teatro ou no contacto com as práticas contemporâneas de outras disciplinas artísticas. Deixa também de fora o aguerrido trabalho de divulgação da música contemporânea, que Peixinho entendeu desde o primeiro momento como parte integral da sua actividade enquanto intérprete e compositor: desde os “succèsses de scandale” com primeiras apresentações de Cage em Portugal (na primeira das quais tinha o nosso compositor uns imberbes 21 anos), à criação dos primeiros cursos dedicados à música nova em território nacional, até à fundação do Grupo de Música Contemporânea de Lisboa.
Também a sua participação em Darmstadt merece qualificação: a Darmstadt que Peixinho conheceu — e na qual foi ganhando gradualmente notoriedade — foi a dos anos sessenta. Em 1967 e 1968, Peixinho participa em dois seminários de Stockhausen, nos quais são levadas a cabo experiências de composição de grupo, que trabalham uma polifonia radical, deshierarquizada, composta a muitas mãos. Estas duas experiências — “apaixonantes”, escreve o compositor em correspondência — foram decisivas no desenhar do seu horizonte de futuro.
É aqui que nos juntamos a ele, com este concerto. Enquanto Stockhausen (como foi notado logo por alguns contemporâneos) se mostrava desinteressado (quando não mesmo antagónico) quanto ao potencial utópico destas suas propostas musicais, Peixinho tomou para si a tarefa de pensar o que seria uma _música política_. Numa originalidade absoluta no caso português — seja na “Primavera Marcelista” ou no PREC (como as obras deste programa), seja no período democrático até hoje —, nenhum outro compositor foi tão empenhado na expressão musical dos seus ideais políticos em música, e nos seus ideais musicais na política. As peças deste programa, com as suas partituras abertas à decisão individual e dependentes da escuta atenta entre os membros do ensemble, oferecem modelos de sociabilidade que podem ser descritos como democráticos. Se a política é o conjunto de actividades associadas à tomada de decisão em grupo, esta música é inerentemente política, muito para lá da frontalidade dos seus títulos. Estas peças são testemunhos vivos do espírito de resistência democrática ao regime salazarista e da vontade de construir um país melhor — e lembram-nos que, tal como a música, a política emerge essencialmente das nossas próprias mãos.
Biografia
Dirigido artisticamente pelo maestro Jan Wierzba, o Ensemble MPMP é um grupo de instrumentação flexível — da música de câmara à coral-sinfónica — que tem desenvolvido, desde 2012, um trabalho de proximidade com musicólogos e compositores com vista à redescoberta de património passado e à valorização de repertórios contemporâneos. Tem-se apresentado no Festival Prémio Jovens Músicos (CCB, em 2013, e Fundação Gulbenkian, em 2015) e no Festival de São Roque (2013, 2014, 2015, 2017, 2018, 2020). Enquanto emanação em palco dos trabalho de investigação e valorização do MPMP, recuperou, em estreia morderna, obras de Marcos Portugal, João José Baldi, D. Pedro IV, Joaquim Casimiro Júnior, Francisco Norberto dos Santos Pinto, Sá de Noronha, Freitas Gazul, Augusto Machado e Luiz de Freitas Branco (entre outros). Em 2015 levou à cena as óperas “O cavaleiro das mãos irresistíveis” e “Cai uma rosa...”, respetivamente de Ruy Coelho e de Daniel Moreira, nos Teatros Municipais de Almada e do Porto. Em formação orquestral foi também dirigido por Pedro Neves e Martim Sousa Tavares. Integrou diversos ciclos de câmara e de mediação de públicos (Proximidades, Histórias da Música em Portugal, Contemplações, entre outros), concebidos pelo MPMP e apresentados em dezenas de auditórios por todo o país e estrangeiro (França, Dinamarca e Brasil, país que visitou já em três digressões, pisando palcos tão importantes como o Theatro Municipal de São Paulo e a Sala Cecília Meireles, e ainda gravando um programa de música portuguesa para a TV Brasil). Participou no Festival Dias da Música 2017 (CCB), Festival Internacional de Saxofone de Palmela (2021) e Festival de Música de Sintra, aqui interpretando os monumentais “Mattutino de’morti” de Bomtempo. Mais recentemente, participou nos Festivais Música Viva (2024) e World New Music Days (2025). Gravou para cinema, teatro e instalação, e editou já discos com música de Eurico Carrapatoso, Fernando Lopes-Graça, Ruy Coelho, Filipe Pires e Fernando C. Lapa.
