SOND’AR-TE ELECTRIC  ENSEMBLE #1
Apr
28
8:00 PM20:00

SOND’AR-TE ELECTRIC ENSEMBLE #1

Sala Luís Miguel Cintra

20h
Guillaume Bourgogne - direcção

Programa:
José Carlos Sousa - Mafish Mushkila – *
Pedro Berardinelli - nova obra título a definir – **
Carlos Lopes – in Pulses – ***
Olivier Messiaen – Quarteto para o Fin do Tempo (1941)


*  encomenda Sond’Ar-te Electric Ensemble
**  encomenda conjunta FIMPV e Miso Music Portugal
***  encomenda Miso Music Portugal             


SOND’AR-TE ELECTRIC ENSEMBLE
Sílvia Cancela – flauta
Nuno Pinto – clarinete
Vítor Vieira – violino
Filipe Quaresma – violoncelo
João Casimiro Almeida – piano
João Dias - percussão

O Sond'Ar-te Electric Ensemble, ensemble residente da Miso Music Portugal, apresenta neste programa um percurso musical que se inscreve plenamente na temática “Insurgência” do Festival Música Viva. Reunindo três estreias absolutas dos compositores portugueses Carlos Lopes, Pedro Berardinelli e José Carlos Sousa, obras encomendadas pelo próprio ensemble e pela Miso Music Portugal, o programa afirma a criação contemporânea como espaço de risco, de pensamento e de afirmação artística.

Estas novas obras dialogam com uma das criações mais emblemáticas do século XX, o Quatuor pour la fin du temps de Olivier Messiaen, composto e estreado em 1941 no campo de prisioneiros de guerra de Görlitz. Nascida num contexto extremo de violência e privação, esta obra permanece como um poderoso testemunho da capacidade da música para afirmar a dignidade humana e a transcendência mesmo nas circunstâncias mais adversas.

Ao colocar em diálogo a urgência da criação contemporânea com esta obra seminal, o Sond’Ar-te Electric Ensemble constrói um programa que entende a música como gesto de resistência, de consciência e de liberdade. Interpretado por músicos de reconhecida excelência artística e profundo compromisso com a música do nosso tempo, este concerto propõe uma experiência de escuta intensa, onde a criação se afirma como espaço de insurgência poética e ética — um acto de imaginação crítica perante as tensões e desafios do presente.

 

O Sond’Ar-te Electric Ensemble é um ensemble inovador dedicado à música contemporânea no panorama europeu da nova música. A sua estrutura base assenta na combinação permanente de 5 a 8 instrumentos acústicos (flauta, clarinete, violino, viola, violoncelo, piano, percussão e voz) e da eletrónica, apoiando-se na experiência técnica do Miso Studio.

O repertório do Sond’Ar-te Electric Ensemble abrange algumas das mais importantes obras para ensemble de 5 a 8 instrumentos dos séculos XX e XXI. Uma das características centrais deste projecto é a encomenda regular de novas obras, promovendo assim o desenvolvimento forte e dinâmico da música de câmara contemporânea com eletrónica, com especial atenção à criação portuguesa. Neste mesmo sentido lançou até esta data 6 volumes fonográficos com obras de autores portugueses.

Constituído por uma geração de músicos de excepção, com carreiras individuais como solistas, o ensemble alcançou, desde a sua estreia em Setembro de 2007, um elevado nível artístico, afirmando-se como uma referência em Portugal e no estrangeiro no que respeita à música mista. Para além da sua atividade concertística em Portugal, apresentou-se também na Alemanha, Canadá, Coreia do Sul, Espanha, França, Japão, Polónia, Reino Unido e Suiça. Paralelamente, o Sond’Ar-te tem desenvolvido projectos de teatro musical e multimédia, actividades pedagógicas como o Forum for Young Composers, e iniciativas de formação de públicos através de programas especialmente concebidos para jovens.

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Apr
29
6:00 PM18:00

Peixinho Político • ENSEMBLE MPMP #2

Ensemble MPMP #2 Sala Bernardo Sassetti

18h

Peixinho Político

Monográfico Jorge Peixinho

Jorge Peixinho: CDE (1970)
Jorge Peixinho: Elegia a Amílcar Cabral (1973)
Jorge Peixinho: A Aurora do Socialismo (Madrigale Capriccioso) (1975–76)

Ensemble MPMP
Rui Borges Maia
(fl)
Miguel Costa (Cl)
Armando Martins (tpa)
Philippe Marques (Pn)
Francisco Cipriano (perc)
Daniel Bolito (Vln)
Ângela Carneiro (Vc)

 Jorge Peixinho é um caso singular na historiografia da música portuguesa. A ele devemos (afirmou Augusto M. Seabra) “o efectivo início de práticas musicais contemporâneas em Portugal”. “Nunca é demais recordá-lo”, disse o crítico. Porém, são demasiadas as vezes em que essas práticas são mal recordadas — reduzidas à introdução de uma estética serialista em contexto nacional, resumida de forma rápida pela sua frequência dos cursos de verão de Darmstadt.

Uma caricatura de tal modo esboçada deixa de fora o seu trabalho seminal na electroacústica, na música incidental para teatro ou no contacto com as práticas contemporâneas de outras disciplinas artísticas. Deixa também de fora o aguerrido trabalho de divulgação da música contemporânea, que Peixinho entendeu desde o primeiro momento como parte integral da sua actividade enquanto intérprete e compositor: desde os “succèsses de scandale” com primeiras apresentações de Cage em Portugal (na primeira das quais tinha o nosso compositor uns imberbes 21 anos), à criação dos primeiros cursos dedicados à música nova em território nacional, até à fundação do Grupo de Música Contemporânea de Lisboa.


Também a sua participação em Darmstadt merece qualificação: a Darmstadt que Peixinho conheceu — e na qual foi ganhando gradualmente notoriedade — foi a dos anos sessenta. Em 1967 e 1968, Peixinho participa em dois seminários de Stockhausen, nos quais são levadas a cabo experiências de composição de grupo, que trabalham uma polifonia radical, deshierarquizada, composta a muitas mãos. Estas duas experiências — “apaixonantes”, escreve o compositor em correspondência — foram decisivas no desenhar do seu horizonte de futuro.

 

É aqui que nos juntamos a ele, com este concerto. Enquanto Stockhausen (como foi notado logo por alguns contemporâneos) se mostrava desinteressado (quando não mesmo antagónico) quanto ao potencial utópico destas suas propostas musicais, Peixinho tomou para si a tarefa de pensar o que seria uma _música política_. Numa originalidade absoluta no caso português — seja na “Primavera Marcelista” ou no PREC (como as obras deste programa), seja no período democrático até hoje —, nenhum outro compositor foi tão empenhado na expressão musical dos seus ideais políticos em música, e nos seus ideais musicais na política. As peças deste programa, com as suas partituras abertas à decisão individual e dependentes da escuta atenta entre os membros do ensemble, oferecem modelos de sociabilidade que podem ser descritos como democráticos. Se a política é o conjunto de actividades associadas à tomada de decisão em grupo, esta música é inerentemente política, muito para lá da frontalidade dos seus títulos. Estas peças são testemunhos vivos do espírito de resistência democrática ao regime salazarista e da vontade de construir um país melhor — e lembram-nos que, tal como a música, a política emerge essencialmente das nossas próprias mãos.


Ensemble MPMP

Biografia

Dirigido artisticamente pelo maestro Jan Wierzba, o Ensemble MPMP é um grupo de instrumentação flexível — da música de câmara à coral-sinfónica — que tem desenvolvido, desde 2012, um trabalho de proximidade com musicólogos e compositores com vista à redescoberta de património passado e à valorização de repertórios contemporâneos. Tem-se apresentado no Festival Prémio Jovens Músicos (CCB, em 2013, e Fundação Gulbenkian, em 2015) e no Festival de São Roque (2013, 2014, 2015, 2017, 2018, 2020). Enquanto emanação em palco dos trabalho de investigação e valorização do MPMP, recuperou, em estreia morderna, obras de Marcos Portugal, João José Baldi, D. Pedro IV, Joaquim Casimiro Júnior, Francisco Norberto dos Santos Pinto, Sá de Noronha, Freitas Gazul, Augusto Machado e Luiz de Freitas Branco (entre outros). Em 2015 levou à cena as óperas “O cavaleiro das mãos irresistíveis” e “Cai uma rosa...”, respetivamente de Ruy Coelho e de Daniel Moreira, nos Teatros Municipais de Almada e do Porto. Em formação orquestral foi também dirigido por Pedro Neves e Martim Sousa Tavares. Integrou diversos ciclos de câmara e de mediação de públicos (Proximidades, Histórias da Música em Portugal, Contemplações, entre outros), concebidos pelo MPMP e apresentados em dezenas de auditórios por todo o país e estrangeiro (França, Dinamarca e Brasil, país que visitou já em três digressões, pisando palcos tão importantes como o Theatro Municipal de São Paulo e a Sala Cecília Meireles, e ainda gravando um programa de música portuguesa para a TV Brasil). Participou no Festival Dias da Música 2017 (CCB), Festival Internacional de Saxofone de Palmela (2021) e Festival de Música de Sintra, aqui interpretando os monumentais “Mattutino de’morti” de Bomtempo. Mais recentemente, participou nos Festivais Música Viva (2024) e World New Music Days (2025). Gravou para cinema, teatro e instalação, e editou já discos com música de Eurico Carrapatoso, Fernando Lopes-Graça, Ruy Coelho, Filipe Pires e Fernando C. Lapa.

 

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O POVO UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO • JOSÉ PEDRO RIBEIRO #3
Apr
29
8:00 PM20:00

O POVO UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO • JOSÉ PEDRO RIBEIRO #3

Sala Luís Miguel Cintra

20h

JOSÉ PEDRO RIBEIROpiano

“O POVO UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO”
Fernando Lopes-Graça:: Prelúdio, Canção e Dança (1928)
Frederic Rzewski: The People United Will Never Be Defeated! (1975)

Este recital do pianista José Pedro Ribeiro convoca duas figuras maiores da criação musical que fizeram da arte um espaço de resistência ética, política e estética.

O programa coloca em diálogo a obra monumental The People United Will Never Be Defeated! (1975) de Frederic Rzewski com uma obra de Fernando Lopes-Graça, compositor português profundamente marcado pelo seu compromisso cívico e pela oposição ao regime autoritário do Estado Novo. Em ambos, a música afirma-se como gesto de consciência e de intervenção, transformando o som em lugar de memória, de crítica e de esperança.

Escrita a partir da célebre canção chilena associada às lutas populares na América Latina, a obra de Rzewski constrói um vasto ciclo de variações que explora os limites expressivos e técnicos do piano, articulando virtuosismo, improvisação, experimentação sonora e reflexão política. Já na música de Lopes-Graça, a relação entre tradição popular, modernidade estética e compromisso ético traduz-se numa escrita intensa e profundamente enraizada na realidade cultural e social portuguesa.

Interpretado por um dos pianistas portugueses mais destacados da sua geração, este recital propõe uma escuta que ultrapassa o mero gesto musical para afirmar o piano como espaço de pensamento e de resistência. Num festival que assume a insurgência como necessidade vital contra a indiferença e a normalização da violência, estas obras recordam-nos que a música pode ser também um acto de insubmissão, uma forma de memória activa e um horizonte de liberdade.

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EXIGENTES OS MORTOS, INSURGENTES OS VIVOS • DUO NADA CONTRA #4
Apr
30
6:00 PM18:00

EXIGENTES OS MORTOS, INSURGENTES OS VIVOS • DUO NADA CONTRA #4

Sala Bernardo Sassetti

18h

DUO NADA CONTRA

Mrika Sefa - piano, Francisco Cipriano - percussão

“EXIGENTES OS MORTOS, INSURGENTES OS VIVOS”

João Quinteiro: Pairs - à propos de l’interiorité (2024)
Valerio Sannicandro: Esercizi di morte (2024)
Marta Domingues: Sowing snow in cone pots (2024)
Anda Kryeziu: nova obra / EA (encomenda Miso Music Portugal )

EA = Estreia absoluta

Nada Contra deve ser interpretado como uma resposta ousada e irreverente ao estreitamento fascista da arte e da imaginação. Num clima cultural cada vez mais moldado pela lógica do mercado, os artistas que carregam uma vela acesa por uma piscina seca e em ruínas - concentrando toda a sua vontade em manter viva aquela chama frágil, como em Nostalgia, de Tarkovsky - representam, para nós, um profundo ato de fé, sacrifício e resistência.

Este programa nasceu de uma estreita colaboração com compositores que admiramos. Cada peça aqui apresentada é o resultado de um compromisso mútuo com o atrito e a liberdade.

As possibilidades sonoras inesgotáveis da percussão encontram o teclado MIDI, um instrumento sem uma identidade sonora intrínseca e fixa que, através da manipulação digital, pode transformar-se em qualquer textura imaginável, moldando os materiais auditivos e a criação de sentido. Como tal, não é uma ferramenta neutra, mas um parceiro relacional — uma realidade humanamente relevante.

Trabalhar com ferramentas digitais também requer enfrentar as suas contradições. Os avanços técnicos são frequentemente mais rápidos do que uma reflexão cuidadosa sobre o seu propósito artístico. Embora essas ferramentas democratizam a criação, também reforçam os imperativos capitalistas. Na nossa opinião, a primeira pergunta ao lidar com qualquer tecnologia musical deve ser sempre simples e inevitável: porquê? Neste programa, essa questão é explorada por meio de investigação baseada no som e prática colaborativa.

Aqui, a insurgência reside em afirmar a intenção, a primazia do corpo e do trabalho, e estar juntos como um coletivo contra as pressões da velocidade, da uniformidade e do consumo passivo.

Nada Contra é um duo formado pelo percussionista Francisco Cipriano e pela pianista Mrika Sefa, dedicado à interpretação, investigação e expansão do repertório dos séculos XX e XXI. O projeto nasce com o objetivo de contribuir ativamente para a performance da música contemporânea e para a criação de novas obras concebidas especificamente para esta formação singular. O duo explora e celebra a união sónica entre a percussão e o potencial ilimitado dos teclados MIDI. Concebido como um projeto altamente portátil - no qual o piano é quase totalmente substituído por teclado - o Nada Contra procura descentralizar a cena da música contemporânea, tornando-a mais acessível a diferentes comunidades e contextos geográficos. Desde a sua estreia, em fevereiro de 2024, no O’culto da Ajuda (Lisboa), o Nada Contra tem desenvolvido uma colaboração próxima com vários compositores, entre os quais João Quinteiro, Hugo Vasco Reis, Valerio Sannicandro e Michael Maria Ziffels, cujas obras tiveram estreia mundial em Lisboa. Em agosto de 2024, o duo estreou no Festival Achtelton (Hitzacker, Alemanha) uma nova obra de Marta Domingues. Paralelamente, apresentou-se em diversos contextos nacionais e internacionais, incluindo o Festival Croma (Oeiras), Sonoscopia (Porto), Lisboa Incomum (Lisboa), Galeria Dr. António Lopes (Covilhã), Space Festival (Montemor-o-Velho) e Vila 31 Art Explora (Tirana, Albânia), contando com o apoio da Fundação GDA. Em celebração do primeiro ano de atividade, o Nada Contra lançou o seu álbum de estreia, When You Hear Hoofbeats, Think Horses, Not Zebras, que se encontra disponível em todas as plataformas digitais.

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GRUPO DE PERCUSSÃO DA ORQUESTRA DE CÂMARA PORTUGUESA #5 • Uma Celebração de Steve Reich
Apr
30
8:00 PM20:00

GRUPO DE PERCUSSÃO DA ORQUESTRA DE CÂMARA PORTUGUESA #5 • Uma Celebração de Steve Reich

Uma Celebração de Steve Reich

Sala Luís Miguel Cintra

20h

PROGRAMA

Solange Azevedo:
nova obra / EA (encomenda Miso Music Portugal)
Steve Reich: Drumming      

GRUPO DE PERCUSSÃO DA ORQUESTRA DE CÂMARA PORTUGUESA e CONVIDADOS

Pedro Carneiro - direcção e percussão;
Flauta: Rui Borges Maia
Soprano: Maria Grilo
Mezzo-Soprano: Markéta Chumová
Assistente direção e Percussão: João Carlos Pacheco
Percussão: Agostinho Sequeira, Marco Aleixo, João Braga Simões, Rafael Picamilho, Bárbara Ribeiro, Paulo Amendoeira, Madalena Rato

Em 2026, comemora-se o 90.º aniversário de Steve Reich, figura fundamental da música contemporânea norte-americana. Para assinalar esta importante efeméride, o Grupo de Percussão da Orquestra de Câmara Portuguesa (OCP) e o festival Música Viva apresentam Drumming, uma obra lendária e um dos mais significativos exemplos do minimalismo norte-americano. Uma viagem de Reich ao Gana, realizada em 1970, influenciou a conceção desta obra musical, impulsionando uma investigação sobre a riqueza sonora da percussão, a sonoridade acústica e padrões curtos e repetitivos, cuidadosamente desalinhados num processo que integra múltiplas dinâmicas de tensão rítmica e a criação radical de novas combinações. 

Drumming constitui a sua composição mais extensa (com uma duração que oscila entre os 55 e os 75 minutos, consoante o número de repetições) e baseia-se no aperfeiçoamento final de um processo de desfasamento rítmico que denominou de “phasing”. É composta por quatro partes interpretadas ininterruptamente: a primeira secção destina-se a quatro pares de bongos afinados; a segunda, a três marimbas e duas vozes femininas; a terceira, a três glockenspiels, assobio e flautim; e a quarta secção conjuga um grande agrupamento composto por todos estes instrumentos e vozes (que não cantam palavras, mas mimetizam o som dos instrumentos, tornando-se parte integrante da sonoridade acústica instrumental). A música, desde o seu início vibrante, mantém um único padrão rítmico fundamental de doze impulsos, o qual sofre alterações de fase, afinação e timbre, culminando num final exultante. 

Em contraponto, será apresentada em estreia absoluta a obra de Solange Azevedo (n. 1995), a compositora selecionada no MÚSICA VIVA – Call Ibérico para Compositoras. Sob a temática da “Insurgência” e inspirada na instrumentação de Drumming, Azevedo explora de forma poética a magia da interação entre o par de marimbas (ambos interpretados a quatro mãos, evocando os formatos intimistas de Schubert) com a flauta e as vozes. É de realçar a utilização de varas roscadas de madeira, no teclado da marimba, viabilizando um novo som cantabile do instrumento, uma qualidade sonora tipicamente associada a instrumentos de corda ou à própria voz. 

Nas suas próprias palavras: “Existe um cálculo que estima o número aproximado de cores que a visão humana é capaz de distinguir. Este número é necessariamente limitado e condicionado pela fisiologia do olho e pelo cérebro, variando também de indivíduo para indivíduo. Essa variabilidade percetiva sustenta a perspetiva de que a experiência da cor não é fixa nem universal, mas dependente do olhar que a apreende. No Mesmo Espaço utiliza o espetro visível como ponto de partida para refletir sobre a diversidade. Se a luz engloba milhões de variações cromáticas, também o mundo contém múltiplos modos de existência. A diversidade não é uma exceção, mas sim parte constitutiva da realidade. Cada instante da peça assemelha-se à contemplação de uma luz imaginada. Observamos como ela se movimenta e se propaga pelo espaço, revelando cores — por vezes de forma lenta e progressiva, por outras de maneira mais célere.”

Distanciadas por mais de uma geração em termos etários e mais de cinquenta na data de composição, as obras de Reich e Azevedo convergem neste momento no tempo e no espaço para celebrar a plenitude cromática do mundo, através da luz, do vigor e da pulsão vital expressa pelas vozes, sopros e baquetas deste Grupo de Percussão da Orquestra de Câmara Portuguesa (OCP) e convidados.

Pedro Carneiro

Maestro, percussionista, compositor, pedagogo. É cofundador e diretor artístico da Orquestra de Câmara Portuguesa (OCP), do ensemble inclusivo Notas de Contacto, da Jovem Orquestra Portuguesa (JOP) e diversos projectos de cariz social. Recebeu, entre outras distinções, o Prémio Gulbenkian Arte, uma distinção do Presidente Jorge Sampaio (nos 30 anos do 25 de Abril) e a Medalha de Honra da Cidade de Setúbal.

Tocou e dirigiu em estreia absoluta mais de uma centena de novas obras e colabora com prestigiados músicos nacionais e internacionais por todo o mundo. Apresentou-se com as mais variadas orquestras nacionais e internacionais: Orquestra Gulbenkian, Orquestra Sinfónica Portuguesa, Orquestra Metropolitana de Lisboa, Los Angeles Philharmonic, Seattle Symphony Orchestra, Budapest Festival Orchestra, Helsinki Philharmonic, Vienna Chamber Orchestra, Swedish Chamber Orchestra, SWR Symphonieorchester, English Chamber Orchestra, Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, BBC National Orchestra of Wales, entre muitas outras.

Apresenta-se regularmente como maestro e solista/diretor, dirigindo obras concertantes a partir da marimba. É professor na Escola Superior de Música de Lisboa (ESML). A sua extensa discografia (que inclui registos a solo, música de câmara, obras concertantes e improvisação) está disponível em diversas etiquetas discográficas, como a ECM Records, Clean Feed e Rattle Records.

©Patrícia Andrade

Orquestra de Câmara Portuguesa

A Orquestra de Câmara Portuguesa - Associação Musical foi fundada por Pedro Carneiro, Teresa Simas, Alexandre Dias e José Augusto Carneiro, em 2007, estreando-se na abertura da Temporada do Centro Cultural de Belém, a convite de António Mega Ferreira, que a par de Miguel Coelho impulsionaram a OCP. 

A OCP tem estatuto de Utilidade Pública, promove iniciativas como o “Notas de Contacto”, dedicado a pessoas com deficiência cognitiva, a “Orquestra dos Navegadores” e as “Sementes”, para crianças e adolescentes, e a OCPdois ponto de encontro de músicos profissionais e amadores.

Em 2010, lançou a Jovem Orquestra Portuguesa, representante de Portugal na Federação Europeia de Jovens Orquestras Nacionais, com  internacionalizações no Ateneu de Bucareste e na Konzerthaus de Berlim (Festival Young Euro Classic). Participante ativa no programa de intercâmbio de jovens músicos europeus, MusXchange, e Fundação Dudamel.

A OCP reúne músicos profissionais independentes que preparam programas inovadores. Internacionalizou-se em 2010 no City of London Festival, e em Portugal já atuou por todo o país. Destacam-se as colaborações com a Companhia Nacional de Bailado, e festivais como o Cistermúsica, Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim, Festival das Artes, Festival ao Largo, Festival de Sintra, Operafest, e Festival de Ópera de Óbidos. A OCP promove todos os anos o FIMCO (Festival Internacional de Música de Oeiras).

A OCP tem o apoio da Direção-Geral das Artes e de parceiros institucionais como os municípios de Lisboa e Oeiras, a PwC, a Antena 2, a Fundação GDA, e os governos dos Açores e Madeira.

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MISOSTRING QUARTET #6
May
2
6:00 PM18:00

MISOSTRING QUARTET #6

Sala Bernardo Sassetti

18h

MISOSTRING QAURTET

Pedro Lopes - violino; César Nogueira - violino; Joana Cipriano - viola;
Luís André Ferreira - violoncelo

Diogo Alvim: Tłumaczenie (2015)
Doina Rotaru: Vivarta (2009)
 Steve Reich: Different Trains (1988)

O concerto inaugural do Miso String Quartet, integrado no Festival Música Viva 2026, inscreve-se plenamente na temática desta edição - “Insurgência” - entendida pelo festival como um gesto de resistência estética e ética num mundo marcado por crises profundas, pela normalização da violência e pela erosão progressiva da humanidade e da natureza. Neste contexto, a música afirma-se como espaço de confronto, de memória e de consciência crítica.

O programa reúne três obras de compositores de diferentes geografias e gerações que, cada uma à sua maneira, reflectem sobre a história, a identidade e a condição humana. Em Tłumaczenie, o compositor português Diogo Alvim explora a ideia de tradução - não apenas entre línguas, mas entre culturas, memórias e gestos musicais - abrindo um espaço de escuta onde a transformação e o deslocamento se tornam motores de criação.

A compositora romena Doïna Rotaru, em Vivarta, convoca uma dimensão espiritual e arquetípica da música, inspirada em conceitos filosóficos de transformação e ilusão do mundo. A escrita de Rotaru, profundamente ligada às raízes culturais da Roménia, cria um espaço sonoro de intensa energia interior e de constante metamorfose.

O programa culmina com Different Trains de Steve Reich, obra seminal da música do final do século XX que cruza quarteto de cordas e gravações sonoras para confrontar duas realidades históricas: as viagens de comboio da infância do compositor nos Estados Unidos e os comboios que, na Europa, transportavam milhões de pessoas para os campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Ao transformar vozes reais em material musical, Reich constrói um poderoso memorial sonoro que recorda como a história e a memória colectiva permanecem inscritas na própria matéria do som.

Neste concerto inaugural, o Miso String Quartet propõe assim um percurso de escuta que atravessa memória, identidade e transformação, afirmando a música como lugar de reflexão crítica e de resistência sensível — uma resposta artística clara ao desafio lançado pelo Festival Música Viva 2026, onde insurgir é também recordar, questionar e imaginar outras possibilidades de futuro.

 

O Miso String Quartet, fundado pela Miso Music Portugal, nasce da convicção de que o quarteto de cordas - uma das formações mais emblemáticas da história da música - permanece hoje um laboratório vivo de criação, pensamento e escuta. Partindo dessa tradição, o ensemble assume a contemporaneidade como território de experimentação e liberdade artística, promovendo a encomenda e a estreia de novas obras e desenvolvendo um diálogo próximo com compositores de diferentes gerações, com especial atenção à criação portuguesa.

Ao mesmo tempo, o quarteto considera essencial manter uma relação activa com o repertório canónico do quarteto de cordas, cuja presença na sua futura programação permite situar historicamente a criação contemporânea e oferecer ao público um percurso de escuta mais amplo. A articulação entre obras do passado e do presente assume assim uma dimensão pedagógica - entendida em sentido lato,contribuindo para a formação de públicos e para uma compreensão mais profunda da evolução estética da música de câmara.

Este trabalho é igualmente pensado numa perspectiva de descentralização cultural, procurando levar programas exigentes e artisticamente ambiciosos a contextos fora dos grandes centros urbanos, criando novas oportunidades de contacto directo com o repertório histórico e contemporâneo do quarteto de cordas.

Constituído por músicos de reconhecida excelência artística — Pedro Lopes (1.º violino), César Nogueira(2.º violino), Joana Cipriano (viola) e Luís André Ferreira (violoncelo) — e sob direcção artística de Miguel Azguime, o Miso String Quartet projecta-se como um espaço de encontro entre tradição e criação, onde memória, invenção e escuta se entrelaçam num compromisso activo com a música do nosso tempo.


 

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MÚSICA / TRANSFORMAÇÃO – SINFONIETTA DE BRAGA CONVIDA RITA CASTRO BLANCO”  #7
May
2
8:00 PM20:00

MÚSICA / TRANSFORMAÇÃO – SINFONIETTA DE BRAGA CONVIDA RITA CASTRO BLANCO” #7

Sala Luís Miguel Cintra

20h

SINFONIETTA DE BRAGA

Rita Castro Blanco Direcção

“MÚSICA / TRANSFORMAÇÃO – SINFONIETTA DE BRAGA CONVIDA RITA CASTRO BLANCO”

Alban Berg - 3 peças para orquestra de cordas da Suite Lírica (1925–26 / arr. Theo Verbey, 1993)
György Ligeti: Ramifications (1969)
Toru Takemitsu: Requiem para orquestra de cordas (1957)
Bruno Gabirro: Rebel (Chaos) (2008)
Carlos Brito Dias: "was birgst du so bang dein Gesicht?” (2022)             

O concerto da Sinfonietta de Braga, sob a direção de Rita Castro Blanco, propõe um percurso intenso pelas linguagens mais marcantes da escrita para orquestra de cordas dos séculos XX e XXI, explorando os limites expressivos e tímbricos deste corpo instrumental. Ao reunir obras de diferentes geografias e gerações, o concerto constrói um diálogo contínuo entre o legado do modernismo e a criação do nosso tempo, e revela como a música pode tornar-se espaço de confronto, introspeção e transformação.

A abertura do programa apresenta três peças da Suite Lírica de Alban Berg, numa versão para orquestra de cordas que amplifica a densidade expressiva e o lirismo inquieto desta obra central da Segunda Escola de Viena. Na música de Berg, profundamente humana e carregada de tensão emocional, ecoam já as fraturas de um mundo em mudança.

Segue-se Ramifications de György Ligeti, peça emblemática na qual a divisão subtil da afinação entre dois grupos de cordas cria um campo sonoro instável e vibrante. As suas texturas micro-polifónicas fazem emergir uma matéria musical em permanente mutação, onde o som parece oscilar entre densidade e dissolução.

Com o Requiem para orquestra de cordas de Tōru Takemitsu, o concerto entra numa dimensão de profunda contemplação. Escrita em memória de um mentor do compositor, esta obra tornou-se uma das páginas mais intensas da música japonesa do século XX, onde silêncio, ressonância e timbre constroem uma atmosfera de recolhimento e gravidade poética.

A vitalidade da criação portuguesa contemporânea manifesta-se em duas obras que, de diferentes formas, dialogam com a ideia de resistência implícita no tema do festival. Em Rebel (Chaos), Bruno Gabirroexplora uma escrita incisiva e energética, onde o gesto musical se afirma com vigor e contraste. Já was birgst du so bang dein Gesicht? de Carlos Brito Dias, cujo título ecoa um verso da tradição germânica, convoca uma dimensão interrogativa e introspectiva, como se a música procurasse revelar aquilo que permanece oculto sob a superfície da experiência humana.

Neste contexto, o concerto da Sinfonietta de Braga propõe uma escuta que ultrapassa o mero gesto estético para se afirmar como reflexão sensível sobre o nosso tempo. Entre lirismo, tensão e contemplação, estas obras lembram-nos que a música continua a ser um lugar privilegiado para imaginar, questionar e reinventar o mundo.

 

Fundada em 2006 e reestruturada em 2016, a Sinfonietta de Braga dedica-se à missão de potenciar carreiras musicais, formar públicos e dinamizar a oferta cultural, com um foco especial na região de Braga. Cultivando um portefólio artístico focado na qualidade e diversidade musical, a Sinfonietta afirma-se hoje como um dos principais pilares da cultura na região, contando com o apoio dos Municípios de Braga, Esposende, Monção, Bragança e ainda o Apoio Sustentado da DGArtes desde 2023.

Além da sua programação própria, centrada nos projetos Falando de Música, Festival Arcada e Re:Opera, a Sinfonietta de Braga tem colaborado com diversas iniciativas e instituições, participando em festivais e ciclos culturais como o Ciclo Contraponto, no Theatro Circo, a Semana Santa de Braga, a Viagem de Inverno/Braga é Natal e a Braga Barroca. Em 2025 apresentou a sua primeira edição discográfica, intitulada "Arco da Corda Nova", na qual une esforços com o guitarrista Artur Caldeira para explorar a música tradicional portuguesa com orquestra de cordas.

 

Rita Castro Blanco é uma das eminentes maestrinas portuguesas da sua geração, tendo-se estreado com a Orquestra Gulbenkian, Orquestra Metropolitana de Lisboa, Orquestra das Beiras, Orquestra do Norte, Orquestra Clássica de Espinho e MPMP. De Setembro de 2019 a Janeiro de 2022, deteve o posto de Maestrina Titular da Huddersfield Philharmonic Orchestra.

Para além das numerosas estreias, a jovem maestrina colaborou profissionalmente como Assistente de Nuno Coelho (Orquestra Gulbenkian, JONDE), Joana Carneiro (Orquestra Sinfónica Portuguesa) e Clark Rundell (Orquestra Gulbenkian). Durante os seus estudos no Royal Northern College of Music fez também assistências nas orquestras BBC Philharmonic, Royal Liverpool Philharmonic Orchestra, Manchester Camerata e Hallé, para maestros como Sir Mark Elder, Vasily Petrenko, Elim Chan, John Storgards, Joana Carneiro, Ed Gardner e Simone Young.

Desde o início dos seus estudos tem vindo a participar em masterclasses com as orquestras da Royal Opera House, London Sinfonietta, Stavanger Symphony Orchestra e Balthasar Neumann Essemble. No passado verão foi Conducting Fellow no conceituado Festival de Tanglewood, tendo também integrado o Mentorship for Women Conductors do Festival de Aix-en-Provence e a Conducting Fellowship no Festival de Lucerne, ambos em 2021. Os seus mais recentes compromissos incluem estreias com a Staatstheatre Darmstadt e a Orquestra Sinfónica da Casa da Música.

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O LUGAR DA MEMÓRIA • ORQUESTRA METROPOLITANA DE LISBOA #8
May
3
5:30 PM17:30

O LUGAR DA MEMÓRIA • ORQUESTRA METROPOLITANA DE LISBOA #8

Sala Luís Miguel Cintra

17h30

ORQUESTRA METROPOLITANA DE LISBOA

Pedro Neves - direcção
Nuno Pinto -
clarinete; Vítor Vieira - violino;
Filipe Quaresma -
violoncelo; Elsa Silva - piano 

Miguel Azguime: Against Silence / triplo concerto para clarinete,  violoncelo, piano e orquestra
Ludwig van Beethoven: Triplo Concerto para violino, violoncelo, piano e orquestra

O concerto de encerramento do Festival Música Viva 2026, dedicado ao tema “Insurgência”, reúne duas obras que, separadas por mais de dois séculos, convergem numa mesma afirmação da música como espaço de liberdade, diálogo e resistência.

Sob a direcção de Pedro Neves, a Orquestra Metropolitana de Lisboa apresenta Against Silence – Triplo Concerto para clarinete, violoncelo, piano e orquestra de cordas de Miguel Azguime. Nesta obra, o confronto entre três solistas e o corpo orquestral constrói um espaço dramático onde o som se afirma como gesto de resistência contra o silêncio imposto, contra a indiferença e contra a erosão da escuta no mundo contemporâneo. A escrita de Azguime explora a tensão entre individualidade e colectivo, fazendo emergir um discurso musical que transforma o diálogo instrumental numa metáfora da própria necessidade de insurgência.

Em diálogo com esta criação contemporânea, o programa apresenta o Triplo Concerto de Ludwig van Beethoven, obra singular do repertório clássico que reúne violino, violoncelo e piano numa relação de colaboração e equilíbrio com a orquestra. Composta no início do século XIX, esta partitura reflete já o espírito humanista e emancipador que atravessa a obra de Beethoven, afirmando a música como espaço de encontro entre vozes individuais e comunidade.

Colocadas lado a lado, estas duas obras revelam como, em épocas distintas, a música pode tornar-se gesto de afirmação e de liberdade. No contexto do Festival Música Viva 2026, que convoca a insurgência como resposta à violência, à normalização da tirania e à erosão da humanidade, este concerto final transforma o palco orquestral num espaço de escuta activa e de pensamento crítico - onde a música se ergue contra o silêncio e reafirma a sua capacidade de imaginar futuros possíveis.

 

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