Sala Bernardo Sassetti 18h
“CANTO DA LIBERDADE”
Programa
Leitura de texto de Gonçalo M. Tavares por Joana Santos
Diogo Alvim: Tłumaczenie (2015)
Doina Rotaru: Vivarta (2009)
Steve Reich: Different Trains (1988)
Pedro Lopes - violino; César Nogueira - violino; Joana Cipriano - viola;
Luís André Ferreira - violoncelo
fotografias ©EGEAC – Teatro São Luiz, Pedro Rosário Nunes.
O concerto inaugural do Miso String Quartet, integrado no Festival Música Viva 2026, inscreve-se plenamente na temática desta edição - “Insurgência” - entendida pelo festival como um gesto de resistência estética e ética num mundo marcado por crises profundas, pela normalização da violência e pela erosão progressiva da humanidade e da natureza. Neste contexto, a música afirma-se como espaço de confronto, de memória e de consciência crítica.
O programa reúne três obras de compositores de diferentes geografias e gerações que, cada uma à sua maneira, reflectem sobre a história, a identidade e a condição humana. Em Tłumaczenie, o compositor português Diogo Alvim explora a ideia de tradução - não apenas entre línguas, mas entre culturas, memórias e gestos musicais - abrindo um espaço de escuta onde a transformação e o deslocamento se tornam motores de criação.
A compositora romena Doïna Rotaru, em Vivarta, convoca uma dimensão espiritual e arquetípica da música, inspirada em conceitos filosóficos de transformação e ilusão do mundo. A escrita de Rotaru, profundamente ligada às raízes culturais da Roménia, cria um espaço sonoro de intensa energia interior e de constante metamorfose.
O programa culmina com Different Trains de Steve Reich, obra seminal da música do final do século XX que cruza quarteto de cordas e gravações sonoras para confrontar duas realidades históricas: as viagens de comboio da infância do compositor nos Estados Unidos e os comboios que, na Europa, transportavam milhões de pessoas para os campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Ao transformar vozes reais em material musical, Reich constrói um poderoso memorial sonoro que recorda como a história e a memória colectiva permanecem inscritas na própria matéria do som.
Neste concerto inaugural, o Miso String Quartet propõe assim um percurso de escuta que atravessa memória, identidade e transformação, afirmando a música como lugar de reflexão crítica e de resistência sensível — uma resposta artística clara ao desafio lançado pelo Festival Música Viva 2026, onde insurgir é também recordar, questionar e imaginar outras possibilidades de futuro.
O Miso String Quartet, fundado pela Miso Music Portugal, nasce da convicção de que o quarteto de cordas - uma das formações mais emblemáticas da história da música - permanece hoje um laboratório vivo de criação, pensamento e escuta. Partindo dessa tradição, o ensemble assume a contemporaneidade como território de experimentação e liberdade artística, promovendo a encomenda e a estreia de novas obras e desenvolvendo um diálogo próximo com compositores de diferentes gerações, com especial atenção à criação portuguesa.
Ao mesmo tempo, o quarteto considera essencial manter uma relação activa com o repertório canónico do quarteto de cordas, cuja presença na sua futura programação permite situar historicamente a criação contemporânea e oferecer ao público um percurso de escuta mais amplo. A articulação entre obras do passado e do presente assume assim uma dimensão pedagógica - entendida em sentido lato,contribuindo para a formação de públicos e para uma compreensão mais profunda da evolução estética da música de câmara.
Este trabalho é igualmente pensado numa perspectiva de descentralização cultural, procurando levar programas exigentes e artisticamente ambiciosos a contextos fora dos grandes centros urbanos, criando novas oportunidades de contacto directo com o repertório histórico e contemporâneo do quarteto de cordas.
Constituído por músicos de reconhecida excelência artística — Pedro Lopes (1.º violino), César Nogueira(2.º violino), Joana Cipriano (viola) e Luís André Ferreira (violoncelo) — e sob direcção artística de Miguel Azguime, o Miso String Quartet projecta-se como um espaço de encontro entre tradição e criação, onde memória, invenção e escuta se entrelaçam num compromisso activo com a música do nosso tempo.
NOTAS OBRAS
Tłumaczenie (2015)
para quarteto de cordas
Duração: ca. 15’
Tłumaczeniesignifica “tradução” em polaco. A peça foi escrita originalmente para o quarteto polaco Royal String Quartet, e estreada em Belfast em 2015. Parte de uma experiência de tradução entre arquitetura e música, tomando como referência o edifício do Departamento de Música do Stranmillis College, em Belfast, desenhado por H. Wightman em 1968. Trata-se de um edifício invulgar: quase suspenso, como um disco voador, mas ao mesmo tempo integrado na paisagem envolvente de uma forma sensível e delicada. A peça não procura representar literalmente esse edifício. Em vez disso, propõe três formas diferentes de explorar uma tradução para som, cada uma atravessada por uma referência polaca de 1968: Krzysztof Penderecki, Edward Krasiński e Stanisław Lem. O primeiro andamento usa códigos do Segundo Quarteto de Cordas de Penderecki (1968) para articular uma ampla gama de texturas e timbres musicais, através de símbolos peculiares e linhas ondulantes. É a minha sonificação subjectiva do edifício — dos diferentes espaços, materiais, formas e ambientes. É uma tradução simultaneamente formal, conceptual, fenomenológica; ao mesmo tempo ambígua e contraditória. O segundo andamento baseia-se numa partitura gráfica inspirada na linha azul que Edward Krasiński começou a usar em 1968, atravessando galerias, objetos, ruas e até corpos. Nesta peça, essa linha é transportada para a partitura e conduz os músicos através de diferentes “vistas” do edifício. Texturas, perspectivas, sobreposições e mudanças de escala tornam-se sugestões para a produção sonora, sem corresponderem a símbolos fixos ou a sons pré-determinados. O terceiro andamento parte do romance A Voz do Dono, de Stanisław Lem, também publicado em 1968, sobre a tentativa falhada de compreender uma mensagem de origem desconhecida. Uma frase do livro foi lida (no original em polaco) dentro do edifício de Wightman, gravada, reproduzida novamente no espaço e regravada várias vezes, num processo próximo de I am Sitting in a Room, de Alvin Lucier. À medida que o texto se torna irreconhecível, permanece sobretudo a assinatura acústicado espaço, o seu ambiente sonoro. Essa gravação deu origem a uma partitura sonora: os músicos estudam-na de ouvido, memorizam-na e traduzem-na instrumentalmente. O resultado não é uma imitação, mas uma transformação partilhada de algo que resiste sempre à tradução, uma tarefa impossível. “Mas aconteceu que o emissor desconhecido cometeu uma terrível gafe, pois enviou uma carta sem introduções, sem gramática, sem dicionário — uma carta enorme, gravada em quase um quilómetro de fita magnética.” Stanisław Lem, A Voz do Dono, 1968
